sexta-feira, outubro 03, 2014

MUDANÇA DE IDADE


Para explicar os excessos do meu irmão a minha mãe dizia: está na mudança de idade.

Na altura, eu não tinha idade nenhuma e o tempo era todo meu.

Despontavam borbulhas no rosto do meu irmão, eu morria de inveja enquanto me perguntava: em que idade a idade muda?

Que vida, escondida de mim, vivia ele?

Em que adiantada estação o tempo lhe vinha comer à mão?

Na espera de recompensa, eu à lua pedia uma outra idade.

Respondiam-me batuques mas vinham de longe, de onde já não chega o luar.

Antes de dormirmos a mãe vinha esticar os lençóis que era um modo de beijar o nosso sono.

Meu anjo, não durmas triste, pedia.

E eu não sabia se era comigo que ela falava.

A tristeza, dizia, é uma doença envergonhada.

Não aprendas a gostar dessa doença.

As suas palavras soavam mais longe que os tambores noturnos.

O que invejas, falava a mãe, não é a idade.

É a vida para além do sonho.

Idades mudaram-me, calaram-se tambores, na lua se aninhou a materna voz.

E eu já nada reclamo.

Agora sei: apenas o amor nos rouba o tempo.

E ainda hoje estico os lençóis antes de adormecer.

MIA COUTO

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada pelo comentário...