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domingo, outubro 04, 2015

Amor


Os três melhores negócios no Brasil, hoje, a julgar pela quantidade, são: farmácias, academias de ginástica e lojas para animais domésticos. Deduções sociológicas à vontade.

Multiplicam-se as farmácias por que o país está doente ou por que há uma oferta cada vez maior de remédios vitais ou paliativos e perfumaria, promovidos agressivamente por uma indústria bilionária sem limites de verba publicitária?

Academias de ginástica por todo lado atestam o culto à forma física que cresce no mundo inteiro e são também pontos de encontro, em que as pessoas suam e confraternizam em doses iguais.

Dizem que nas academias já existe até uma rotina de paquera chamada de “romance de esteira”, que raramente dura até depois do banho, mas pode ficar sério. De qualquer maneira, o brasileiro está malhando, o que é bom para a saúde nacional — sem falar na saúde financeira dos fornecedores de acessórios para ginástica.

E nas lojas para animais domésticos encontra-se de tudo para gatos, cachorros e outros bichos de estimação. Sua proliferação é mais difícil de explicar. A procura pelos seus produtos e serviços — casaquinhos para o frio, pratinhos personalizados, xampus, escova, manicure, veterinários de plantão, até atendimento psiquiátrico — já era grande, e nos últimos anos tem aumentado.

É fácil ridicularizar essa atenção exagerada a bichos, uma atenção que é negada às crianças abandonadas, por exemplo, uma crítica sempre repetida. Mas a relação das pessoas com seus animais e destes com seus donos ultrapassa o ridículo, é uma forma de amor mais profunda do que qualquer outra. Muito mais profunda do que a do amor entre humanos.

O animal domesticado garante ao seu dono amor desinteressado. Ou, vá lá, devoção total e eterna em troca de pouca coisa, só casa e comida. Entre dono e bicho existe um entendimento impossível ou muito raro no convívio humano.

De um lado, um extremo de carinho que só existe igual no amor a um filho ou no amor sexual, sem nenhuma das complicações do amor a um filho e do amor sexual; do outro, lealdade absoluta. Ajuda o fato de o bicho não saber falar, salvo no caso de papagaios respondões. Amor sem discussão, o ideal.

Entende-se, portanto, que se queira dar aos animais tudo o que é possível comprar numa das lojas especializadas que hoje já são, no Brasil, mais numerosas do que videoshops. É amor. Se sobrar algum para as crianças abandonadas, melhor.

VERÍSSIMO

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