terça-feira, fevereiro 05, 2013

Por trás do Carnaval


Um amigo gaúcho veio para o Rio de Janeiro com duas amigas. Hospedou-se num albergue, ou hostel, em Santa Tereza, encontrado pela internet. Como todos os hostels, esse também oferecia quartos coletivos. Os três fecharam um só para eles.

Havia 12 pessoas hospedadas. Nos próximos dias esperavam-se mais 12, lotação total. E um só banheiro! Não estou brincando.

Parte do tempo das férias dos gaúchos foi dedicada à fila do banheiro!

A gente ficava de campana e, quando liberava, entrava correndo – diz o rapaz.

Nos hostels cariocas, há até quartos para 12 pessoas. Alguns são mais luxuosos: oferecem um banheiro feminino e outro masculino. A rapaziada gosta.

Ficar num albergue da juventude é uma chance de conhecer novas pessoas.

No Leblon há um tão concorrido que, de noite, na calçada, dá uma balada, tal a animação. Existe até uma figura folclórica nos hostels cariocas: um jovem italiano que troca a estadia por serviços. Cada semana fica em um. Cuida do bar, faz faxina, vai vivendo.

Acomodação no Rio é um item espantoso. Há alguns meses, conheci um senhor que estava abrindo uma pousada em Ipanema. Ele me mostrou, orgulhoso, a reforma recém-terminada. A maioria dos apartamentos não tinha... janelas! Havia mofo e umidade. Juro, senti um aperto no coração. Imaginei o futuro prejuízo daquele homem que investira todas as economias.

Culpei mentalmente o arquiteto. Pura falta de noção de minha parte. A pousada vive lotada. Rende 100%. Eu imagino, é claro, o susto dos gringos ao descobrir que não terão janelas em pleno Rio de Janeiro.

Em geral, o pacote é pago com antecedência, fazer o quê?

O turismo carioca prova que é possível sobreviver sem banheiro e sem janelas.

No outro extremo da pirâmide, o Fasano também vive lotado. Impossível mesa no restaurante. O terraço panorâmico é concorridíssimo.

Soube de gente que aluga quartos para turistas. É um jeito fácil de descolar uma grana. Tem até site especializado.

Já pensei em alugar dois quartos. Pagaria empregada, condomínio, IPTU e, ainda mais, treinaria meu inglês, sem necessidade de aulas particulares.

Meu único medo é alugar para um psicopata. Acho que ando vendo muito filme de terror...

Só me pergunto: se agora, num simples Carnaval, até albergue com um banheiro só lota, como será na Copa? E nas Olimpíadas?

Nos bastidores do Carnaval propriamente dito, trava-se a mesma batalha de todo ano. É a guerra por convites VIPs nos camarotes.

Sou obrigado a me curvar ao marketing das cervejarias. Astros e estrelas, que cobram milhões para protagonizar um comercial, alegram-se em posar com uma camiseta da marca. A troco de um simples convite VIP. Sentem-se em decadência se não são convidados.

Pior ainda: não ser convidado é realmente prova de menor status no quesito fama e prestígio. Os responsáveis pela organização dos camarotes têm um detector infalível para quem já está no alto, subindo, caindo, rolando a ladeira, despencado... Também sabem lidar com a relatividade da fama: astros internacionais ou consagradíssimos ficam num recinto VIP do VIP.

Os famosos daqui sentem-se péssimos quando barrados nesse local tão reservado. Já fui em vários camarotes. É uma delícia acompanhar o desfile das escolas de perto, ainda mais com um superserviço de bebidas e comidas.

No camarote da Grande Rio, onde já estive, fica-se praticamente dependurado nas escolas

(Oops... não estou pedindo convite! Este ano vou passar longe, escrevendo minha novela!)

 Mas é doloroso presenciar alguém no auge da fama instantânea. É aquela pessoa que acaba de fazer um supersucesso, possivelmente numa novela. Faz caras e bocas.

A pergunta que vem à cabeça é:

– E no ano que vem, estará aqui?

Já tive vontade de ser recepcionista de um camarote. Para quem gosta de fofoca, como eu, é um prato cheio. Surge a atriz veterana. Acaba de conhecer um garotão que quer botar para dentro.

A penetra experiente, que entra, embora não seja sequer aspirante a VIP. Na verdade, não tem nem como pagar um táxi para casa. Naquela noite, sente-se rainha. Eu me espanto.

Há gente rica que pode comprar seu próprio camarote. Mas faz questão de convite e posa de camiseta.

Na sociedade atual, a fama substitui o título de nobreza. Receber um convite VIP é prova de que a pessoa tem pelo menos um grau de reconhecimento social. Equivale a uma gota de sangue azul.


WALCYR CARRASCO - ÉPOCA

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