segunda-feira, janeiro 21, 2013


O que fazer quando a filha de cinco anos volta da creche e pergunta: “Mãe, Deus é o rei, né?”

A única resposta que consegui pronunciar, na hora, foi: “Sim, fofolete, claro que é…”. Mas respondi engasgado. Afinal, eu faço parte do diminuto percentual mundial de ateus. Ou, para ser um pouco mais diplomática, posso dizer que sou agnóstica – acho que a existência ou não de um Deus é uma questão que nunca será realmente respondida. O que fazer, então, quando uma das prefessorinhas da creche é religiosa, dessas de esconder o cabelo e só usar saias comprida, e gosta de propagar sua fé para as criancinhas?

Acho importante que minha filha entre em contato com todo tipo de gente, que absorva ideias, aprenda teorias, discuta possibilidades. Eu mesma só cheguei à conclusão sobre minha falta de fé depois de muito estudar, ler, conversar com outra pessoas e negociar comigo mesma. Longe de mim impôr à minha filha ideologias, não só religiosas quanto sócio-econômicas. Mas achei que teria que lidar com tudo isso quando ela fosse um pouquinho mais velha. Não aos 5 aninhos… Daí ter engasgado ao responder à inusitada pergunta da menina.

Depois de minha resposta inicial, decidi perguntar à ela, em tom blasé: “Você acha que Deus existe ou é como fadas e bruxinhas?”. O que se seguiu foi um diálogo sensacional.

– Existe, claro, mãe! Igual a fadas e bruxinhas.

– Eles existem de verdade ou só na imaginação das pessoas?

– De verdade. E também na imaginação. As duas coisas.

– E como é Deus? Como ele se chama?

– Ele se chama “Elohim” (a palavra para “Deus” em hebraico). Mas vou te contar um segredo. Deus é, na verdade, uma menina. O nome dela é “Elokim”.

(Nota da blogueira: “Elokim” é a palavra usada por religiosos para não falar “Elohim”, o que seria uma blasfêmia. Provavelmente, a professora da creche deve ter dito que o certo é falar “Elokim”).

– “Elokim”? Que nome interessante. E como você sabe que Deus é uma mulher?

– Por que na minha imaginação, Deus usa uma saia muito comprida e brilhante, tem cabelos bem longos e uma varinha na mão. Foi ela quem criou o céu, a terra, os animais, as florzinhas, mamães e papais e também os dinossauros…

A essa altura, começou a passar “Dora, a Aventureira” e a menina achou que era muito mais importante do que discutir a verdadeira natureza divina – uma questão sem muita relevância. Pelo menos para ela.

Foi nesse momento que relaxei de vez. Se Dora é mais importante que Deus, ainda falta muito tempo para que minha filha quebre a cabeça com questões de fé – ou não-fé.



[Daniela Kresch, correspondente da Globonews em Israel]

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