sexta-feira, agosto 03, 2012

Sobre Palavras


Eu te peço (ou lhe peço?), mas você não dá

“Pode ser ignorância de minha parte, mas sempre tive dificuldade de diferenciar ‘Eu te dou’ de ‘Eu lhe dou’. Um abração e obrigado pela resposta.” (Carlos Antonio de Figueiredo)

A consulta de Figueiredo tem uma resposta curta e uma longa.

Embora a ideia não seja fazer um trocadilho, a curta leva em conta a culta, ou melhor, a norma culta. Usa-se o pronome pessoal oblíquo da terceira pessoa, “lhe” ou “o/a”, quando o interlocutor for tratado por “você”, e o pronome pessoal oblíquo da segunda pessoa, “te”, se ele for tratado por tu. Simples assim.

Exemplos: “Eu te amo, és linda”. Ou: “Eu a amo, você é linda”. Outro: “Eu te peço, não me abandones”. Ou: “Eu lhe peço, não me abandone”. Para decidir entre “o/a” e “lhe”, o que se leva em conta é se o verbo é transitivo direto, caso em que se adota a primeira opção, ou indireto.

E fim de papo. Só precisa ler até aqui quem estiver preocupado apenas em escrever com correção, caprichar no relatório da firma ou não perder pontos em provas.

Naturalmente, a questão vai além dessa dimensão, o que nos leva à resposta longa. Esta inclui tudo o que foi dito acima e acrescenta a evidência de que, na linguagem familiar brasileira, mesmo os mais cultos entre nós desrespeitam desde sempre tudo o que foi dito acima.

No português brasileiro coloquial, o que vemos é um tenaz embaralhamento dos pronomes pessoais da segunda e da terceira pessoa, numa confusão que tem raízes históricas no fato de que o pronome de tratamento “você” (uma contração de “vossa mercê”, ou seja, terceira pessoa) nasceu como substituto ligeiramente mais cerimonioso de “tu” (segunda pessoa). Mais tarde, quando “você” se tornou o oposto disso na maior parte das regiões do país – um substituto menos cerimonioso de “tu”, que tem uso cada vez mais restrito ao campo literário – consolidou-se a mistura: “Eu te amo, você é linda”, diz-se no registro íntimo, aquele em que a concordância tradicional soaria uma nota falsa.

O “tu”, como se sabe, também deu um jeito de sobreviver na linguagem coloquial em determinados falares regionais brasileiros, mas desacompanhado da devida concordância verbal. “Eu te amo, tu é linda”. O que vem a ser a outra face da mesma moeda.

Nada disso é um drama ou prova de nossa inviabilidade cultural, como muitas vezes, de modo ingênuo e até cômico, comenta-se por aí. Simplesmente não há idioma em que a linguagem familiar e a linguagem formal – para não mencionar a literária – coincidam à perfeição.

Basta levar em conta o ambiente, o contexto, o tom, a intenção das palavras. E, de resto, tocar a vida.

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