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sábado, junho 27, 2015

O povo dança e canta nas ruas


Que maravilha, que beleza.
Que dia para a gente lembrar sempre, dia histórico.
Foi uma vitória de encher o peito, de acelerar o coração.
O povo dança e canta nas ruas.

Bem, a última frase é um exagero, claro. Uma licença poética. É a frase que todo jornalista gostaria de botar na manchete. Se possível em caixa alta, ocupando todas as colunas, como o New York Times fez em duas ocasiões, que eu saiba – “Men walk on moon” e “Nixon resigns”.

O POVO DANÇA E CANTA NAS RUAS

Se não propriamente dança e canta nas ruas, dança e canta nas redes sociais, que no és lo mismo pero és igual.

Me deu uma felicidade daquelas de arrepiar quando vi a página do Facebook se colorindo com as cores do arco-íris.

Foi rápido, foi avassalador, como têm sido os movimentos gerais, das multidões, nas redes sociais, nestes tempos modernos. Em um espaço curtíssimo de tempo, sei lá, talvez uma hora, as fotos de dezenas e dezenas de amigos meus se coloriram. Amigos – muitos amigos da vida, mesmo, daqueles que a gente guarda do lado esquerdo do peito, como lembrava o poeta Fernando Brant. Outros, novos amigos, que a gente nunca abraçou, mas com quem a gente convive neste admirável mundo novo das redes.

Me deu orgulho de meus amigos. De ter tanto amigo que está do meu lado, que, diabo, é o lado certo.

***

Acho que vou divagar um pouco.

Quando cheguei à adolescência, fui aprendendo com os mais velhos e também com os meus colegas que tudo é relativo, e não há, a rigor, o certo e o errado.

Levei muito tempo para entender que a relatividade é relativa. Que há algumas verdades que são básicas, pétreas, fundamentais. Tipo aquela mais básica, mais pétrea, mais fundamental de todas: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos.

Negar as verdades básicas, ir contra as verdades básicas é errado. Não cabe relativismo nenhum nisso. É errado, é imoral – e pronto.

Assim, como corolário disso, temos que todo tipo de preconceito é errado, é imoral. Qualquer um – contra brancos, contra negros, contra cafusos, contra confusos, contra lúcidos, contra amarelos, contra gays, contra veados e/ou viados, contra héteros, contra sapatões, sapatinhas, sandalhinhas, contra bis, contra tris, contra qualquer um.

Todo tipo de preconceito ou de barreira que impeça qualquer tipo de pessoa de exercer plenamente seus direitos – e seus deveres também, como a Declaração Universal faria bem se lembrasse.

***

Há uns cinco ou seis temas que dividem as sociedades praticamente ao meio. A pena de morte. O direito ao aborto. O direito à morte digna. O direito de usar drogas. O direito de qualquer casal, seja ele formado por pessoas de que tipo for de opção sexual, se casar, constituir família.

Eu, euzinho, eu aqui, sempre fui e continuo sendo – cada dia mais – contra a pena de morte e a favor de todos os direitos citados acima.

Sei que todos esses temas são polêmicos, que dividem as sociedades. De todos eles, no entanto, o que me parece mais óbvio, mais tranquilo, mais simples, é o do casamento.

Proibir casamento de dois homens, ou de duas mulheres, é absurdo, grotesco, é muito pior que medieval – é pré-histórico, é paleolítico.

O Supremo Tribunal Federal do Brasil teve esse entendimento, quatro anos atrás, se não me engano – e os nossos ministros merecem, por isso, toda a nossa reverência.

A Suprema Corte dos Estados Unidos teve esse entendimento hoje. É verdade que o placar foi apertadíssimo, 5 a 4 – afinal, a Suprema Corte sempre representou a sociedade americana, e a sociedade americana é dividida ao meio diante de diversas questões fundamentais, inclusive, ou principalmente, aquelas cinco ou seis que citei.

Como os Estados Unidos são o pais mais rico, mais influente, mais avançado (em muitas coisas) do planeta, a decisão é de fato histórica, maravilhosa, sensacional.

É de fazer o povo dançar e cantar nas ruas.

Bem, ou de dançar e cantar nas redes sociais. No és lo mismo, pero és igual – o casi.

***

Participar de uma felicidade coletiva é uma das melhores coisas que pode haver na vida.

E foi o que senti hoje, vendo a time line do Facebook virando arco-íris. Me sentindo orgulhoso dos meus amigos, de tanta gente que fez a opção certa.

Quando Mary conseguiu me carregar para Paris, porque num final de noite eu bêbado disse que iria a Paris se fosse para ver um show de Moustaki, e aí ela comprou ingressos para a sexta fila do Olympia, e aí não teve jeito, e fui, eu virei pra ela – me lembro perfeitamente – e falei pra ela olhar pra trás, pro Olympia lotadinho, lotadinho. E disse: “Aqui não tem nenhum mau caráter. Nem sequer um. Mau caráter não vem a show de Moustaki”.

Quem não está feliz hoje, no dia em que o site do New York Times mancheteia, em caixa alta, SAME-SEX MARRIAGE IS A RIGHT, SUPREME COURT RULES, 5-4, pode até não ser exatamente mau caráter, mas tá perto. É doente da cabeça, e do pé.

***

E não dá para não lembrar da sequência da Marselhesa de Casablanca.

Os boches, os tedescos, os filhos da puta dos nazistas estão cantando no Ricky’s Café. Ricky vive bem em Casablanca porque não toma partido, não se incomoda, não liga.

Mas Victor Laszlo – o herói anti-nazista que está agora comendo Ilsa, o amor da vida de Ricky – ousa interferir. Vai até a orquestra e manda que ela toque a Marselhesa.

O líder da orquestra fica em pânico, em dúvida. Seu olhar procura pelo patrão, e acha o patrão, lá em cima.

Ricky faz um sinal de cabeça. A orquestra começa a tocar La Marseillaise. O hino da França faz calar os barulhentos nazistas.

É uma sequências mais belas, mais emocionantes da História do cinema.

Poucos dias atrás, Manuel S. Fonseca escreveu o seguinte (eu gostaria de escrever como Manuel S. Fonseca, quando eu crescesse):

“Chorei, mais crescido, e não foram nunca lágrimas de crocodilo, no Casablanca, quando os porcos nazis atroam os ares com a sua canção fascista e o Bogart, com um aceno de cabeça, deixa que a banda toque a Marselhesa. Um coro de patriotas, mas também as putas, jogadores e bêbados, vão buscar às alienadas tripas a dignidade perdida e um gajo, no sofá do cinema, não tem outro remédio senão desatar num choro convulsivo de baba e ranho. Ah, meu Deus, de vez em quando, o bem que sabe ter a certeza e chorar ao lado dos bons.”

Me aproprio das palavras de Manuel, neste dia de alegria: ah, meu Deus, de vez em quando, como é bom ficar feliz ao lado dos bons.

50 Anos de Textos

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