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terça-feira, junho 30, 2015

A língua da B


Forte, risonha, de coluna reta, Berenice gosta de prosa enquanto trabalha faxinando casas aqui e ali, de sábado a sábado. E fala em língua própria e personalizada. Quando fica muito triste, chega avisando “fiquei com meu coração trespassado”.

Mas normalmente está “alegre por demais das contagens”. Que esse é seu estado de ir esperando chuva para “apagar a poeira” e seca “pra desmelar a lama”.

Mineira, Berenice é personagem revivido de Guimarães Rosa. A pessoa é que “assenta” o nome. “Eu penso e repenso assim”, diz convicta. “Não escolhi o meu, mas fiz ele. E tá feito.”

Segundo ela, a vida só é dura “prus desmorecidos”. O des é seu prefixo preferido. Enfeita quase tudo do que ela diz com certeza certa, pose e sem qualquer inibição. “Se alguém quisera me desumilhar, se desborracha, que cara feia pra mim é doce”.

E lá vem ela, segura de que seu trabalho é bom e a vida só tem uma receita: “desencarar de frente”. As aspas acabam aqui. Segue Berenice na íntegra.

Enquanto limpa a mesa da cozinha, vê a presidenta na TV, para, pensa e dispara: Como a Dilma esmagreceu. Ela tá muito aliada, num é? (Precisa traduzir?)

Quando chega atrasada, explica-se: Você não tem loção de como tava o transido hoje. E o ônibus durim de gente. Terrive.

E vai emendando: Vou botar logo a máquina pra revoltá. (Nem a máquina está revoltada por ter de trabalhar, nem roupa por cair na água e perder a sujeira. Revoltá é só o nome que Berenice resolveu dar para o ato de ligar a máquina).

O passo seguinte será despendurar a roupa. Palavra que ela usa tanto para botar a roupa no varal quanto para tirar. Ela despendura e pronto.

Corda ele chama de coida, básico é basigo. Rúcula é rugla. Bom humor é bom amor, mau humor é mau amor. E tem dias que ela já chega avisando: To muito mau amorada hoje. Destribilei lá em casa.

Vez por outra o celular da Berenice escarrega. E ela nem apercebeu: ele (o cel) vinha pedindo carrego. Mas eu, aqui intertida, se esqueci de descarregar. (Tradução?)

Embalada na prosa, ela conta poetando: Logo ontem, que eu tava pressada, e a novela garrou de ser grande. E eu num desreligo a TV enquando não termina o fim (do capítulo)...

A língua customizada da Berenice tem poesia. Sobre o filho que não quis estudar naquele dia, ela concede: Tem dia que ele tá com o destino de brincar e não refaz nada de diferente disso.

Sobre o cachorro que late quando chega alguém em casa, ela não tem dúvida: Quando ele (o cachorro) vê um motivo, começa a latir mesmo...

Berenice diz que é boa de fazer contas dentro da cabeça, ela só se destrapalha mesmo quando tem de reler os números descritos. Ai é uma descomplicação só!

Sobre gostar ou não de trabalhar, tem uma certeza: Precisa botar costume no corpo ou então desgoverna...

Em recompensação, ensina ela, a vida, com tudo que tem de dentro, nunca desvale a pena. Se desvalesse, ninguém ficava em cama de hospital, espreitando Deus, pra não ser levado fora da hora de não ir.

Conta que tem muita pena dos desaleijados, despaciência com os assoberbados – esses que pensam que desvacuam bombom.

Também tem muita reiva dos que gnoram o temor de Deus e saem desabestados por esse mundo du coisa demo se desvalendo da desgraça aleia. Avisa sempre: chamar pelo nome o coisa demo é perigo certo. Que essa palavra, dita num fora de hora, pode atraer maldade de desassombrar até o menino Jesus do céu.

A prosa da Berenice é farta e rica de berenices. Ela, garante, tem nomeação pra tudo. Num sei como fala, espresto bastante tenção, e repito pra lá de formosa. Com as letrinhas todas bem dizidas, pra ninguém dispor dúvida que eu descompredi o dito.

Dia desses chegou contando que, na véspera, tinha ficado bem descontrangida com o cunhado. Ele, assim do nadinha, resolveu dizer que os meus selhos eram bem mais bonito que os da minha irmã. Agora, veja só se isso é o que se fale na proximidade da própria mulher sua?

Por nada nesse mundo Berenice arruma paciência pra gente desvalidada, que só faz chorar o leite esparramado. Não atolero frescuragem, nem desaforagem, avisa e repete outra máxima: Feito cantava a musga, vem no quente que vou no fervendo. Que desmorecê não desmoreço não.

Berenices.


Tânia Fusco



Tânia Fusco

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