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quarta-feira, março 04, 2015

Quantas mudanças dentro de uma mudança?


Você precisa encaixotar os pertences e depois desencaixotar. Precisa enfrentar a seleção do que abandonará na residência antiga e depois outro descarte no novo paradeiro. Por baixo, são quatro mudanças.

Tenho pena dos militares e dos concursados, que migram indefinidamente de lugar.

Colocará no lixo o que sempre adiou, ressuscitará o que não imaginava que fosse possível.

Quando confia que finalizou o frete, esqueceu uma gaveta e já interrompe o rigor da sequência. A vontade é jogar tudo fora para não mais se preocupar em condicionar, embalar e registrar.

Mesmo que descreva o conteúdo em adesivos, acabará se confundindo. Por mais que você organize para não sofrer contratempos, fracassará em algum momento. Algo vai quebrar, algo vai estragar, algo morrerá impunemente.

Mudar-se de casa é falsificar uma graduação de biblioteconomia, é forjar um diploma de arquiteto.

Descobrirá que o desespero não tem portas. É ser perseguido por si mesmo, vigiado, censurado e odiado pela sombra que foi um dia na vida.

Entrará num perfeccionismo violento que trará erupções na pele e o retorno das espinhas da adolescência.

Aguentará uma tensão máxima ao tocar nos mínimos objetos. Só o esforço da memória é para deixar qualquer um exausto: onde comprei, onde ganhei, qual o significado, presente de que relacionamento?

Será vítima da radioatividade das lembranças. Atravessará uma viagem mental de décadas num piscar de olhos. Mudança significa hipnose regressiva. Mexer em fotos, mexer em cartas, mexer em restos de amores: são experiências de alto risco emocional.

Podemos transitar do ódio à esperança em frações de segundos, dos dez aos trinta anos em instantes. Traumas ressurgem do nada, felicidades respiram soterradas no armário.

Eu tenho muito cuidado ao cumprimentar alguém que passa por este desafio. Nem toco nos ombros. A pessoa pode estar à beira de um colapso. Descabelada, insone, bafo de jaula.

Não dorme, não trabalha, não come, não transa, absolutamente concentrada em terminar o deslocamento. Obcecada em limpar o caos e desafogar o colchão da ameaça dos trastes.

É um psicótico cuspindo ácaros. Um sem-terra no meio da estrada das panelas. Um acampado submerso na enchente de papéis.

Não converse com quem está alterando o endereço. Não comente nada. Não suspire perto.

Deveria existir uma licença de emprego de dez dias, no mínimo. Porque é condenado a um plantão de 24h em seu prédio, aguardando as entregas. É esperar a rede telefônica instalar o aparelho, é esperar os caminhões das lojas, é esperar o eletricista, e nenhum dos envolvidos diz qual horário aparecerá.

Não pode sair. Não pode fazer mais nada da existência. Pensa que organizará a bagunça em uma semana, mas desiste e põe parte das caixas num quarto fechado para cuidar disso num final de semana que nunca vem, que nunca virá, até a próxima mudança.

Fabrício Carpinejar

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