Amizade é coisa simples: Alguém pensa em você mesmo quando você não pede tampouco precisa. E quando precisa não pede porque faz parte do outro, a ponto dele sentir, pressentir.
quarta-feira, fevereiro 04, 2015
Adeus, banheira
Minha nova amiga carioca diz que neste verão calamitoso um banho de banheira é melhor que sexo. Banho oferece prazer garantido, diz ela, enquanto o sexo é pura incerteza. Mesmo triste, sou forçado a concordar. Embora tenha sido o protagonista de raríssimas decepções sexuais (e nenhuma mentira), eu já ouvi muitas mulheres se queixarem de sexo medíocre. Ou mesmo desastroso. Ao contrário do que diz a lenda, sexo não é como pizza: quando é ruim é uma droga. Não dá para curtir.
Escrevo consciente de que as perspectivas de homens e mulheres nesse assunto são distintas. Um desastre do ponto de vista masculino costuma ser sinônimo de brochada. Ou de recusa da mulher na última hora. Tirando isso, o resto é festa - ainda que ela só dure 90 segundos. As mulheres são mais exigentes. Há dezenas de maneiras em que o sexo pode dar errado do ponto de vista delas. Desconexão emocional, falta de sintonia, ausência de clima, preocupação, chatice. Odores também. O ato ocorre, mas não oferece o prazer profundo e demorado de uma banheira de água tépida. Talvez por isso eu conheça mulheres que não ligam para sexo, mas nenhuma - repito, nenhuma - que seja indiferente a um banho de banheira.
Falo, evidentemente, de pessoas que ainda vivem em cidades onde há água. Em São Paulo - para falar apenas da minha cidade - o banho de banheira deixou de ser erótico e se tornou obsceno, quase tão pornográfico quanto lavar o carro no domingo e limpar a calçada com a mangueira ligada. Coisa de tarado.
No tempo em que havia água, poucas coisas deixavam uma mulher mais feliz do que um quarto de hotel com banheira. O lugar poderia ser caído, pequeno e mal localizado, mas, se no quarto houvesse uma banheira limpinha, a paz estaria assegurada. Ou coisa melhor. Um amigo me contou no passado que sua namorada só funcionava sexualmente depois de muito vinho e um banho de imersão. Ponderei, na época, que ele deveria comprar uma banheira e investir numa adega climatizada. Ele preferiu trocar de mulher.
Eu mesmo não tenho experiências assim radicais, mas já pude observar os efeitos afrodisíacos da água sobre as mulheres. Praias, piscinas e banheiras são excelentes preliminares. Na falta delas, uma boa ducha costuma funcionar como relaxante libidinal, embora não produza o mesmo efeito. Basta lembrar as dezenas de filmes românticos em que aparece a banheira. É quase um clichê. A moça está lá primeiro, coberta de espuma, e puxa para dentro o galã hesitante. Ou ele se atira, tomado de luxúria líquida. O importante é que a mulher penetra na água antes, e na cena seguinte os dois aparecem rindo ou fumando. A gente imagina que o conúbio carnal foi bem sucedido e cresce a fama erótica da banheira. Cenas de amor no chuveiro não têm o mesmo charme.
Em tempos de crise da água, imagino como substituir o apelo erótico e emocional da banheira. Ao contrário das minhas gatas, as mulheres não parecem curtir o banho seco: aquela toalha molhada em produto antisséptico que a gente passa delicadamente na pelagem delas, deixando-as macias e cheirosas. Uma alternativa é fazer com a sua garota como se fazia com as crianças no passado: elas sentavam numa bacia de alumínio enorme e recebiam um balde de água morna na cabeça. Depois eram ensaboadas cuidadosamente. Acho que disso a sua mulher vai gostar, qualquer que seja a idade dela. Ou inclinação sexual.
O que está descartado de forma peremptória é o banho de chuveiro com DR. Não dá mais para se alternar sob o jato d’água enquanto vocês discutem a relação e ela ensaboa as suas costas, bem devagarinho. Para a volta dessas delícias teremos de esperar que suba radicalmente o nível das represas no Sudeste.
Na falta de banheira, piscina e duchas demoradas, sugiro cativar sua prenda com possibilidades sustentáveis. Cozinhe para ela, por exemplo. Gasta água, mas menos que um banho. Ou lave a louça, evitando manter a torneira aberta. Não há mulher que não fique contente com um cara que arregaça as mangas. Desligue a TV, conte uma história divertida, vá com ela ao cinema de mãos dada, diga como ela é linda, escute - escute de verdade - o que ela tem a contar. Ouvido e saliva ainda se pode gastar. Talvez com isso o sexo entre vocês seja melhor que um banho de banheira e torne o inverno que nos aguarda menos catastrófico. Chegaremos a julho um pouco mais sujinhos do que sempre estivemos, mas nossos corações podem ser puros e limpos. O amor líquido descrito por Zygmunt Bauman acabou, temporariamente. Com rodízio de água de 5 x 2 dias, ele terá de ser sólido como rocha.
IVAN MARTINS
Postado por
mariatereza cichelli
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