Esta semana fechei uma matéria que mexeu comigo.Entrevistei o bicampeão brasileiro de surfe Jojó de Olivença, criador de um dos projetos sociais mais lindos que já vi. Baiano do sertão de Ipiaú, Jojó teve uma infância pobre e aos 5 anos migrou com a mãe para Olivença, cidade litorânea famosa pelos campeonatos de surfe nos anos 80.
Foi lá que conheceu a prancha, aos 11 anos, ainda sem saber nadar. Foi lá também que Jojó se apaixonou pelo esporte. Lavou muita louça para turista em troca de 15 minutos de prancha emprestada. Pegou onda em pedaço de jangada e prancha de isopor, antes de ganhar sua primeira prancha usada. A ascensão foi rápida: conquistou dois campeonatos brasileiros e passou cinco anos no circuito internacional, entre os melhores do mundo.
Jojó ganhou dinheiro, aprendeu outras línguas, se casou e teve dois filhos. Mas nunca esqueceu das origens. Afinal, como ele próprio diz, contrariou o que o destino lhe havia reservado. Ao se tornar um ícone do esporte, mudou a realidade da família, dos amigos e do ambiente em que vivia. Agora está mudando a vida de crianças carentes do Guarujá. E deseja que elas façam o mesmo com suas famílias. “A vida dura não as deixa sonhar ou acreditar que podem fazer diferença”, diz Jojó.
Há cinco anos Jojó começou um sonho. Ele criou o Projeto Ondas, Surf & Cidadania. Com pranchas doadas de patrocinadores e um espaço pequeno emprestado pela prefeitura da cidade, Jojó e uma equipe pequena começaram a dar aulas de surf para crianças carentes entre 6 a 10 anos. “O surfe é apenas uma forma de atraí-los. Antes ou depois da praia elas vão para sala de aula, têm reforço escolar, aulas de cidadania, carinho, respeito”.
Estive lá na quarta-feira. Vi a empolgação das crianças, o carinho dos funcionários, o lanche justo, sem direito a repetição, a satisfação de todos. Como disse uma professora de uma escola municipal vizinha ao projeto, “os meninos passam a curtir os livros com a mesma empolgação que curtem estar em cima da prancha”. A temática do surf aparece na apostila, no exercício de matemática.
Jojó não é um sujeito rico. Tampouco bem instruído. Em sua busca ininterrupta por patrocínio diz que não se sente à vontade para negociar com empresários. Mas na ausência de um representante, vai e faz como pode. Jojó é engajado, motivado, cheio de planos. Dá o exemplo para as crianças, investe na equipe, ensina, corrige, parabeniza. É para muitos dos meninos a referência que não têm em casa.
Já visitei pelo menos uma dúzia de projetos sociais. Mas nunca vi um engajamento tão grande quanto o de Jojó. A infância difícil dele não explica tudo. A religião também não. O que motiva algumas pessoas a se dedicarem mais aos outros do que a si mesmas? A gente ouve falar de muitas histórias de generosidade. Mas quando se vê de perto é que se compreende como o ser humano é capaz de ser bom. Aplausos a esses guerreiros. E que o mundo tenha cada vez mais pessoas assim.
Se um dia alguém souber a fórmula, favor me repassar, e replicar, e compartilhar.
Luciana Vicária é editora-assistente de ÉPOCA
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