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sábado, janeiro 16, 2016

"Só nós sabemos de quem somos. E nunca somos de ninguém."


A Chuva Pasmada

- Dou-lhe um conselho, filho. Nunca diga que uma mulher foi sua. Essas são coisas para nós. mulheres, dizermos. Só nós sabemos de quem somos. E nunca somos de ninguém.

Ela ficou olhando-me com ar indefinível. Seu rosto me cumprimentava, ela tomava o gosto de ser mãe e me ver ali filhando, pronto a tomar conta dela. Voz amaciada, retomou a palavra:

- A primeira vez que eu o vi, meu filho, você ainda não tinha nascido. Eu o vi numa gota de chuva.

Sim, ela me vira numa gota que escorria pelo vidro, como se tivesse intenção de fazer parte da casa. Minha mãe colheu essa gota na ponta do dedo e, depois, a semeou entre as pestanas. Nessa altura ela prometera:

- Na próxima tristeza hei-de chorar-te a ti, meu filho...

Eu não lhe saí do ventre. Mas da tristeza. Era por isso que aquela chuva, aquela chuva que não tombava, estava falando fundo em sua alma.

- E diz o quê, mãe?

- São segredos entre mulher e água.

E ali ficámos falando, como nunca havíamos conversado.

O que me dizia, em confissão: nunca ela me dedicara nem mimos nem doçuras. Procurava agora uma desculpa? Que se tinha contido nos afectos para se defender de sofrer. Tivera filhos, todos tinham partido. Eu nascera fora do tempo, já ela se cansara de ser mulher.

- É o que lhe dizia, você me nasceu da tristeza. Da tristeza de ter perdido os outros, seus irmãos.

- Mãe. agora já chega de falar em coisa triste. A senhora está ferida, venha que eu a ajudo a regressar.

Levantou-se apoiada em mim, olhou o leito seco e sorriu.

- Essa vida é cheia de graça, meu filho.

Era ali naquela curva do leito que naufragavam as peças da roupa que ela deixava escapar na corrente. Agora, tantos anos passados, ela mesma tinha sido despejada naquele remanso como se fosse um pano largado das mãos de uma lavadeira.

- Sabe por que eu soltava as roupas, meu filho?

- Como posso saber?

- Para descobrir com quem seu pai me traía.

Era um velho procedimento para se revelar traição. A lavadeira devia soltar os panos na corrente. A roupa que não fluísse, flutuando na onde ação, essa roupa pertencia ao culpado ou à culpada.

E houve roupa que não seguiu na corrente?

Houve sim, meu filho. Essa roupa não se afundou na água. Se afundou em mim.

Mia Couto.

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