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quinta-feira, março 19, 2015

Elevador


Aplaca dizia que a ocupação máxima do elevador era de seis pessoas. Entramos eu e mais cinco. Ninguém particularmente gordo, descontando-se, talvez, a minha barriga, mas que também, modestamente, não pesaria como uma sétima pessoa. E o elevador não andou. Elevador mentiroso, pensei. Não se pode acreditar mais nem em placas de segurança.

O elevador não só não subia, como sua porta não se abria. E não só a porta não se abria, como a luz no interior do elevador se apagou. Mesmo se quiséssemos acionar um dos botões do painel, não os enxergaríamos. Éramos seis pessoas presas num pequeno espaço, cada uma pensando no pior que poderia acontecer. Não conseguiriam abrir a porta pelo lado de fora. Ficaríamos ali horas, talvez dias, no escuro, apertados. Ninguém poderia sentar-se no chão do elevador sem roubar espaço de outro. Se alguém desmaiasse, teria que ficar desmaiado em pé. Alguém fatalmente sugeriria maneiras de se passar o tempo até que viesse o socorro. Poderíamos cantar. Contar anedotas. Cada um contar a história da sua vida. Ou talvez fosse melhor ficar em silêncio, para poupar oxigênio. Por onde entraria ar no elevador? E se não entrasse? Por quanto tempo aguentaríamos até recorrer ao canibalismo?

Imaginei uma voz soturna no meio da escuridão dizendo:

— Um de nós é o culpado.

— O quê?

— O elevador se recusou a carregar um de nós.

Eu tinha chamado o elevador de mentiroso em pensamento. Seria eu o culpado?

— Como “se recusou a carregar”? — perguntaria alguém.

— Os elevadores não carregam mais qualquer um. Escolhem quem vão carregar. É a rebelião das máquinas. Elas estão tomando conta. Os celulares já aprisionaram a mente humana. Ninguém mais se comunica a não ser por celulares, que vivem falhando e nos levarão à loucura. Não demora, os eletrodomésticos atacarão em massa. Elevadores que escolhem quem carregar não parece tão absurdo em meio a esta derrocada final. Morreremos todos porque o elevador implicou com um só. Morreremos todos!

No fim, o incidente levou apenas alguns minutos. Voltou a luz do elevador e a porta foi aberta por fora. O grupo de seis foi dividido em dois de três e o elevador obedeceu a todos os comandos sem problema, e subiu humildemente.

Ou talvez estivesse apenas disfarçando...

Luis Fernando Veríssimo Luis Fernando Veríssimo

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